segunda-feira, 26 de maio de 2008

Mulas! Passemos adiante a nossa muleza.

Mula de Deus – Hilda Hilst

I

Para fazer sorrir o Mais Formoso

Alta, dourada, me pensei.

Não esta pardacim, o pêlo fosco.

Pois há de rir-se de mim o Precioso

Para fazer sorrir O Mais Formoso

Lavei com a língua os cascos

E as feridas. Sangüinolenta e viva

Esta do dorso

A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, Senhor, perdoa ainda

É raro, em sendo mula, ter a chaga

E ao mesmo tempo

Aparência de limpa partitura

E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim

Um rei que passa

E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.

Agora é só de dor o flanco trêmulo

Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, voezes, alvoroço.

E há de mim um sentir delicioso.

Um tempo onde fui ave, um outro

Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu

E dementado foi humano e cálido.

Há alguém que foi pai.E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pêlos)

De infinita tristura, encerrada em si mesma.

Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.

Até dos porcos lhes ouço o cantochão

E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.

Escoiceando os ares, espumando de gozo

Assustando mercado e mercadores-

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o ano de Apuléius.

Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.

Fui mãe e meretriz e na Betânia

Toquei o intocado e vi Jeshua

(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussuro, hálito.

Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.

Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.

Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvir murmurando

Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!

Poder amar a Ti com este corpo nojoso

Este de mim, pulsante de outras vidas

Mas tão triste e batido, tão crespo.

De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso

De amar! (E de deitar-se ao pé

De tuas alturas). Corpo acanhado de mula.

Este de mim, mas tão festivo e doce.

Neste Agora

Porque banhado de ti, ó Formosura.

VI

Tu que me vês

Guarda de mim o olhar.

Guarda-me o flanco.

Há de custar tão pouco

Guardar o nada

E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas

O passo apressado sob o jugo

Casco, subidas

Isso é tudo de mim

Mas é tão pouco...

Tu que me vês

Guarda de mim, apenas

Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.

O caudaloso frescor das águas claras

Sobre o pêlo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:

Mula que sou, esse impossível

Posso pedir a Deus. E entendendo nada

Como os homens da Terra.

Como as mulas de Deus.

VIII

Palha

Trapos

Uma só vez o musgo das fontes

O indizível casqueando o nada.

Essa sou eu.

Poeta e mula.

(Aunque pueda parecer

Que del poeta es locura).

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