quinta-feira, 29 de maio de 2008

The times

This is the time of the greatest mythological era. Our senses no longer belongs to us. Our relations are illusions just like our dreams. We are slaves of our own desires and have a huge need for fast satisfaction.We don't want to wait until tomorrow because deep inside the fear of no tomorrow is overwhelming.Feed and adore this fear is by far our favorite game. We work hard for this, baby!
In fact we're chasing our own tales in the dark of a distorced labirynth that we built...
Our time is gonna come...hope it comes today.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Mulas! Passemos adiante a nossa muleza.

Mula de Deus – Hilda Hilst

I

Para fazer sorrir o Mais Formoso

Alta, dourada, me pensei.

Não esta pardacim, o pêlo fosco.

Pois há de rir-se de mim o Precioso

Para fazer sorrir O Mais Formoso

Lavei com a língua os cascos

E as feridas. Sangüinolenta e viva

Esta do dorso

A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, Senhor, perdoa ainda

É raro, em sendo mula, ter a chaga

E ao mesmo tempo

Aparência de limpa partitura

E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim

Um rei que passa

E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.

Agora é só de dor o flanco trêmulo

Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, voezes, alvoroço.

E há de mim um sentir delicioso.

Um tempo onde fui ave, um outro

Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu

E dementado foi humano e cálido.

Há alguém que foi pai.E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pêlos)

De infinita tristura, encerrada em si mesma.

Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.

Até dos porcos lhes ouço o cantochão

E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.

Escoiceando os ares, espumando de gozo

Assustando mercado e mercadores-

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o ano de Apuléius.

Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.

Fui mãe e meretriz e na Betânia

Toquei o intocado e vi Jeshua

(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussuro, hálito.

Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.

Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.

Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvir murmurando

Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!

Poder amar a Ti com este corpo nojoso

Este de mim, pulsante de outras vidas

Mas tão triste e batido, tão crespo.

De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso

De amar! (E de deitar-se ao pé

De tuas alturas). Corpo acanhado de mula.

Este de mim, mas tão festivo e doce.

Neste Agora

Porque banhado de ti, ó Formosura.

VI

Tu que me vês

Guarda de mim o olhar.

Guarda-me o flanco.

Há de custar tão pouco

Guardar o nada

E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas

O passo apressado sob o jugo

Casco, subidas

Isso é tudo de mim

Mas é tão pouco...

Tu que me vês

Guarda de mim, apenas

Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.

O caudaloso frescor das águas claras

Sobre o pêlo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:

Mula que sou, esse impossível

Posso pedir a Deus. E entendendo nada

Como os homens da Terra.

Como as mulas de Deus.

VIII

Palha

Trapos

Uma só vez o musgo das fontes

O indizível casqueando o nada.

Essa sou eu.

Poeta e mula.

(Aunque pueda parecer

Que del poeta es locura).

terça-feira, 20 de maio de 2008

Honra-me Grande Face

Honra-me com teus nadas.
Traduz me passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confunde estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto.
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
A meu eterno entedimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.
Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome
Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames: desnudo até o osso
Igual a um morto.
(Hilda Hilst, 11 de setembro de 1994)

domingo, 18 de maio de 2008

A paz



A alva pomba da paz voou aos céus serenos.

Embaixo homens se agitavam
entre gritos e tiros.

Paquidermes mecânicos
sulcavam fossos
rasgando trincheiras.

Cansada de librar-se nas alturas
a pomba da paz
buscou na terra um pouso
e flechou
num vôo reto
rumo a uma coisa imóvel
hirta e muda no raso campo verde.

E pousou
calma e triste
sobre as mãos cruzadas de um cadáver.


Menotti Del Picchia
(1892-1988)

Deriva

"O mar não está pra peixe". Nem para os naufrágos. Quem o desafia é reduzido à sua insignificância. O mar não está pra você e nem pra mim. O mar não está lá pra ninguém.